Festivais Gil Vicente
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Neste novo ciclo de vida dos Festivais Gil Vicente, a pluralidade do mundo vai continuar a manifestar-se através do dispositivo teatral e interpelar-nos acerca de questões de fundo que organizam a nossa sociedade.
A abrir esta edição de 2022, seguimos o lastro lançado na anterior: formas de imaginar o fim para desencadear outros começos. Seremos convidados a entrar num novo sistema mundial cuja relação e vivência com um determinado regime de poder será feita pela escolha através do voto a cada cinco anos. “Tratado, A Constituição Universal” é uma peça que arrisca uma nova ordem e uma imprevisível resposta do caos a essa nova configuração.
Se por um lado a peça de Diogo Freitas parece ligar-se ao carácter universal da obra de Gil Vicente, já “Massa Mãe” de Sara Inês Gigante propõe o resgate das tradições matéria que tanto lhe era cara. Em palco surgirão questões relevantes: como nasce o conceito de Tradição? O que torna um hábito ou um costume, uma tradição? Qual o poder do tempo numa tradição?
A partir do pensamento sobre a origem chegamos a “Limbo”. Peça da autoria e interpretação de Victor de Oliveira, criador moçambicano radicado em Paris e com anos de crescimento em Portugal, que questiona as disputas da memória coletiva e as experiências de crescer na indefinição, num eixo entre a autoficção e a ficção social.
Esse lugar aparentemente desagradável (limbo) segue em especulação na segunda parte dos Festivais pelos auéééu, que trazem Jean-Luc Godard para cena, tendo como inspiração o seu filme de 1963,“O Desprezo”, para lançar a provocação: como se pode tornar estético, bonito e interessante um sentimento cuja natureza se rege pela falta de apreço ou consideração por alguém ou alguma coisa?
Talvez uma das possíveis respostas à pergunta acima formulada possa ser dada pelas duas peças que fecham esta edição, onde o poder da mulher responde de forma inteligente, firme e destemida ao contexto patriarcal e opressor. “Another Rose” de Sofia Santos Silva (obra vencedora da Bolsa Amélia Rey Colaço) projeta um diálogo entre a realidade oriental e ocidental a partir de um contexto particular, o Gulabi Gang, grupo fundado por mulheres como resposta à violência sistémica e discriminação generalizada de uma sociedade assente em práticas e costumes patriarcais que banalizam a violência sobre as mulheres.
Sobre esse combate num fechado contra a violência e censura, surge o espetáculo “Ainda Marianas”, criação de Catarina Rôlo Salgueiro e Leonor Buescu a partir do livro “As Novas Cartas Portuguesas” de Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa. Uma obra essencial do feminismo, que em 2022 faz 50 anos.
Os novos lugares que procuramos construir em sociedade também passam por um entendimento mais claro e contextualizado sobre o nosso passado.
Rui Torrinha
7€50 / 5€00 c/d
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